sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Animais não são esporte


Animais não são comida.
Animais não são divertimento.
Animais não são esporte.

Você adora cavalos?
Leia abaixo o lindo depoimento de uma ex-praticante de hipismo, Karina Keller.













"Vou contar uma história. 
História minha. 
Você sabe o que é na foto?
Foto por Karina Keller

Encontrei hoje no fundo de uma gaveta. 
São esporas. 
Sempre gostei de montar, eu gostava de me "esconder" num lugarzinho do RS em que alugavam cavalos e faziam trilhas. 
Sempre montava a mesma égua, da última vez em que estive lá, a égua estava a campo.

O dono se envolveu numa briga de terras, em retaliação golpearam a égua na cabeça e ela ficou com graves sequelas.

Aqui poderíamos chamá-lo de tutor, pois contrariou o veterinário e resolveu não sacrificá- lá, deixando-a viver livre pelo tempo que lhe reste.

Nunca mais voltei lá. 
Comecei a praticar hipismo e logo me apaixonei pelo esporte. A sensação de um salto, a coordenação tua com o cavalo, é incrível. 

Mas comecei a ficar triste. 
Chegava mais cedo na hípica e o que via eram animais que cumpriam uma rotina de baía/campo de treino. 

Eram dóceis, mas tristes. 
Muito tristes. 
Uma tristeza tão grande que parecia haver uma aura de tristeza emanando da hípica. 
Se era esporte para mim, não era para eles. 
Então o hipismo deixou de ser esporte para mim também. 
Mas não parei, apenas troquei a modalidade e comecei a praticar rédeas. 
É uma modalidade sutil, logo me veio a vontade de ter um cavalo pra construir uma afinidade de movimentos. 
Pelos deuses que vi muitos cavalos, visitei haras, aprendi sobre potencial genético e estive a um suspiro de fazer um curso de doma com Jango Salgado.

Daí cruzei com um crioulo, sem porte, sem registro, sem treino e me apaixonei. 
O rapaz tinha comprado para desfilar no Sete de Setembro, mas descobriu que mantê-lo custava bem mais que manter um cachorro. 

A favor dele precisa-se dizer que fazia uma verdadeira entrevista com os interessados na compra, ele gostava do cavalo e não queria vender para trabalho pesado ou pessoa agressiva na monta. 
Nos acertamos. 
E levei o Guri, meu cavalo, pro centro de treinamento. 
Todos os narizes viraram para nós. 
O Guri era o cusco do lugar. 
Mas não é que o treinador descobriu que o Guri tinha um excelente esbarro e que com um bom trabalho tinha chance nas competições?

Daí que vieram as esporas.
São número 0. 
Não cortam o cavalo. 
Mas machucam. 

Usadas nos treinamentos. 
E o Guri entrou na rotina de treino. 
Era só pra isso que saía da baía. 
Para focar somente nos movimentos certos e fazer bonito na competição de rédeas. 

Ele ficou triste. 
E eu fiquei triste com a tristeza dele. 

Tirei ele de lá e levei pra uma hotelaria. 
Virou outro cavalo. 
Reconhecia o barulho do meu carro de longe, ficava relinchando e dando pinotes quando eu chegava. 
Aprendeu a procurar comida escondida na minha roupa e meio por acaso descobriu que se me desse a pata, eu caia na risada e mostrava onde estava a comida.
Mas montar começou a ficar difícil. 
Ele tinha boa monta com todos, menos comigo. 
O pessoal falava que eu não me impunha. 
O resto dos cavalos da hotelaria eram pra tiro de laço. 
Com essa galera não tem essa de doma racional que o pessoal das rédeas é adepto. 

Quando eu via outros montarem o Guri, via um cavalo obediente. 
E com medo. 

Não queria isso pro Guri. 
Queria que ele tivesse outra vida. 

Fiquei com medo de ele passar fome nos santuários ou de ser adotado por uma pessoal cruel. 
Comecei a procurar outro dono. 
Não queria ele numa hotelaria, queria ele num sítio. 
E os deuses ajudaram. 
Ele está com uma menina. 
Ela monta ele, mas ele não testa ela, como fazia comigo e com os outros. 
A família mora num sítio e o pai construiu outra cocheira, do lado da casa, que eles chamam de casinha do Guri, porque a menina passa o tempo livre com ele.

Acompanhei essa mudança por um ano, o Guri continuava me reconhecendo, mas parece que o adotado da história foi a menina, ele adora ela e a segue por tudo. 
Leva ela até o portão e sabe direitinho a hora que chega da escola. 

Na época, senti meu coração leve. 
Os esportes com cavalos perderam o fascínio. 
Os cavalos não gostam desses esportes. 

Não gostam de ser montados e seguir comandos. 
Fazem por medo.
O esporte é nosso. 
E subjugamos seres indefesos para divertimento. 
Um cavaleiro não ama seu cavalo, pode até ser afeiçoado a ele, mas o que ama mesmo é a serventia do animal. 
Quando isso aconteceu, não conhecia o veganismo. 
Mas minha mentalidade mudou mesmo assim. 

Agora posso ter mais base intelectual e dar dados de danos causados aos cavalos, mas o verdadeiro lastro que tenho é vivência. 

Essa história poderia ter acabado muito mal. 
Agradeço aos deuses pelo Guri ter ido parar na mão daquele rapaz, pelo rapaz ter achado que eu seria boa pro Guri, pelo Guri ter encontrado a menina. 

Eu não sabia que ainda tinha as esporas. 
Quando encontrei, foi o mesmo que ter encontrado a arma de um crime. 
Mas pelo menos serviu para relembrar e dividir a história com vocês. 

Animais não são comida.

Animais não são divertimento.


Animais não são esporte."

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